Fapesp. André Julião | Agência FAPESP – Embora suas origens estejam na literatura e na arte, o modernismo criou um ambiente de renovação e de mudança, uma atitude nova diante do mundo e do conhecimento. Isso impactou enormemente o ensino e a pesquisa, sobretudo na área de Humanidades, mas extrapolou em muito esse domínio.

A avaliação foi feita ontem (16/02) pelo presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, durante a abertura da 8ª Conferência FAPESP 60 anos, disponível no YouTube.

“A própria criação da Universidade de São Paulo [USP, em 1934] e, por consequência, da FAPESP [em 1962], 40 anos depois da Semana de 22, fazem parte dessa nova atitude diante do mundo”, disse Zago.

O evento teve como mediadora Flávia Camargo Toni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP).

Segundo a pesquisadora, a década seguinte à Semana de Arte Moderna foi propícia para reformas no ensino em todo o país, com a fundação da USP em 1934 e do Departamento de Cultura de São Paulo, que tinha o modernista Mário de Andrade à frente.

“O laço do modernismo na área de Humanidades sedimentou-se na efeméride de 40 anos da Semana, quando na década de 1960 o governador Carvalho Pinto fundou a FAPESP”, afirmou a pesquisadora. No mesmo ano de 1962, acrescentou Toni, era fundado o IEB-USP, comandado por Sérgio Buarque de Holanda.

Zago disse ser importante lembrar que existiam antecedentes ao modernismo e que uma inquietação se revelava mesmo fora de São Paulo, mas que estes não se limitavam às artes e à literatura.

“Toda a sociedade brasileira se modernizava. E a cidade de São Paulo, que naquele momento se enriquecia e se tornava um polo industrial, saía de sua condição quase provinciana para vir, ao longo do tempo, se tornar no século 21 uma das capitais internacionais da cultura”, contou.

Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), recordou que 1922 teve a efeméride do centenário da Independência do Brasil e fatos políticos que repercutiram nas décadas seguintes, como a eclosão do Tenentismo e o episódio da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, além da fundação do Partido Comunista Brasileiro e a realização do Primeiro Congresso Feminista do Brasil, comandado pela bióloga e futura diretora do Museu Nacional, Bertha Lutz.

Fora do Brasil, ocorria a publicação de Ulisses, de James Joyce, e do poema The Waste Land, de T.S. Eliot, além da morte de Marcel Proust. “Uma agenda cultural foi sendo construída passo a passo, longamente, durante os cem anos seguintes”, afirmou.

Interesse renovado

Telê Ancona Lopez, professora emérita da FFLCH-USP, afirmou que os vínculos com a FAPESP nos estudos do modernismo se consolidam, evoluem e se alastram no IEB-USP.

“Penso que as comemorações servem, sobretudo, para que a análise e o distanciamento histórico do que foi feito um dia enriqueçam o nosso olhar, a memória e a história”, disse a pesquisadora, que foi curadora do Arquivo Mário de Andrade no IEB-USP até 2008 e coordenou o projeto “Estudo do processo de criação de Mário de Andrade nos manuscritos de seu arquivo, em sua correspondência, em sua marginália e em suas leituras”, apoiado pela FAPESP.

Jacqueline Penjon, professora da Universidade da Sorbonne Nouvelle, na França, lembrou que a Paris dos anos 1920 não tomou conhecimento da Semana de Arte Moderna de 1922.

Aquele ano, porém, foi muito importante para as relações culturais franco-brasileiras, que vinham se intensificando desde 1908 com a fundação de uma associação das universidades e grandes escolas da capital francesa para as relações com a América Latina.

“A partir disso, vemos que não há nenhuma referência à Semana de Arte Moderna, apenas ao centenário da Independência. A França foi convidada para uma grande exposição que aconteceu no Rio de Janeiro e na Revue de l’Amérique Latine [revista fundada naquele ano] só se falava dessa exposição e da triste sina do Conde D’Eu [marido da Princesa Isabel], que falece justamente quando ia assistir a essa exposição”, contou.

Em 1924, no entanto, Paris receberia a primeira exposição de arte latino-americana, em que Tarsila do Amaral e Anita Malfatti são bastante elogiadas. Há ainda concertos de Heitor Villa-Lobos.

O interesse no modernismo, porém, se esvai nos anos 1930 e só é retomado na década de 1970, quando é publicada a tradução para o francês de Macunaíma e uma revista literária lança uma edição especial dedicada ao modernismo brasileiro.

Embora muito já tenha sido estudado sobre a Semana, as pesquisadoras concordam que ainda há uma gama de possibilidades de novos estudos. Nogueira Galvão lembrou os recém-lançados A arte de devorar o mundo: Aventuras gastronômicas de Oswald de Andrade, livro escrito pelo neto do modernista, Rudá K. Andrade; e O guarda-roupa modernista: O casal Tarsila e Oswald e a moda, de Carolina Casarin.

Ancona Lopez falou sobre como as análises da correspondência de Mário de Andrade têm desfeito ilusões e trazido novos fatos sobre os modernistas. Penjon, por sua vez, lembrou de uma nova leva de obras do período sendo traduzidas agora para o francês.

Para assistir ao evento na íntegra acesse: https://youtu.be/2ZdKiMaOClY.

Outros eventos on-line em comemoração ao centenário da Semana de Arte Moderna acontecem hoje (17/02) e amanhã (18/02). A programação pode ser acessada em: https://fapesp.br/eventos/semanartemoderna.

Os vídeos dos sete primeiros eventos da série Conferências FAPESP 60 anos estão disponíveis em: https://60anos.fapesp.br/conferencias.

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