Entrevista concedida para ocasião da primeira edição da Revista O Capoeira em 2013. Marcelo Santos da Silva, 38 anos de idade natural do Rio de Janeiro, conhecido na capoeiragem como Mestre Pulmão. Ele é do Grupo Senzala e integra a nova geração de mestres do grupo e do Brasil. Entre Sérvia e o Rio de Janeiro Pulmão valoriza o ofício de ensinar e preservar a prática da capoeira.

Como foi o encontro com a Capoeira? Na verdade, eu tive um encontro com a Capoeira ainda na adolescência, um amigo meu que fazia capoeira me convidou para assistir uma aula. Naquele momento decidi que precisava daquela coisa tão fascinante de movimentos e ritmos.

Por que Pulmão, esse apelido você ganhou na capoeira? Meu apelido Pulmão ganhei na rua, na minha infância. Quando criança eu ficava muito doente, com problemas pulmonares e meus amigos então resolveram me chamar de Pulmão.

Quando e com qual Mestre iniciou sua trajetória na capoeira? No ano de 1987 comecei a treinar capoeira em um pequeno grupo no subúrbio do Rio de Janeiro. Um ano depois fui convidado a ir para o Grupo Senzala de Capoeira pelo mestre Zumbi, com quem treinei alguns anos juntamente com Mestre Ramos. Tempo depois passei a treinar com Mestre Peixinho com quem permaneci até a minha formatura.

Na sua avaliação, houve alguma mudança na capoeira desde quando iniciou? Poderia apontar algumas? Sim. Eu acho que a capoeira assim como a própria humanidade vai evoluindo. Quando eu entrei na capoeira, o Rio de Janeiro vivia um momento de muita agressividade, os bailes funks, brigas de torcidas e a capoeira assim como esses dois exemplos era também um fenômeno popular. A grande transformação da capoeira a meu ver se deu quando ela foi para o exterior e voltou. A capoeira voltou mais educada, mais transformada numa maneira didática e também com a necessidade do capoeirista viver da capoeira, dando aulas em escolas e universidades. O capoeirista então teve a necessidade de se reeducar e essa mudança, e se viu claramente nas rodas de capoeira.

Qual dentre os inúmeros benefícios que a capoeira é capaz de proporcionar você destacaria? Uma das características da capoeira que mais me fascina é o poder de reunir qualquer tipo de pessoa, seja ela branca ou negra, rica ou pobre. Um exemplo claro disso e o fato de eu receber aqui na Servia alunos de países que viveram em guerra por muitos anos e tiveram um primeiro contato através da capoeira, esquecendo assim suas diferenças políticas, religiosas e falando uma só linguagem, a da capoeira.

Quais as dificuldades encontradas pelos capoeiristas para ensinar o ofício da capoeiragem? Depende. No Brasil, uma das dificuldades é o próprio capoeirista. A falta de preparo e formação. Temos uma grande demanda hoje em dia de escolas, faculdades, academias, mas muitas das vezes o capoeirista não esta preparado para desenvolver o seu trabalho dentro das regras impostas por essas instituições. Já no exterior uma das dificuldades e vencer a barreira do idioma. Na maioria das vezes o capoeirista sai do Brasil sem saber nem o inglês que é a língua universal.

Qual seria a orientação, a sugestão para os que ambicionam chegar a mestre de capoeira? Eu poderia falar varias coisas, mas acho que a principal e a paciência. Tudo tem o seu tempo, e se tornar mestre e uma coisa que leva tempo.

O ofício dos mestres de capoeira foi registrado no livro dos saberes do Iphan em 2008. Em sua opinião, qual o significado desse reconhecimento para o capoeirista? Isso pra mim foi mais uma conquista dentre tantas outras. Por exemplo, a liberação da pratica da capoeira por Getúlio Vargas. Muitos anos depois o reconhecimento como patrimônio imaterial, e agora o reconhecimento do oficio do mestre de capoeira. Eu acredito que isso e uma evolução da sociedade brasileira.

O Ciclo de Debates Pro-Capoeira, promovido pelo Minc com intermédio da Fundação Cultural Palmares tem estimulado a discussão sobre a regulamentação da atividade do capoeirista. Qual sua opinião sobre essa questão? Assim como tudo tem seus prós e contras, precisamos tomar cuidado para que a herança deixada por nossos ancestrais não se perca no afã da regulamentação. Precisamos ter certeza que regulamentando o profissional não vamos deixar ninguém de fora, então para isso precisamos ver e rever varia vezes todas as questões desse propósito.

A capoeira está em mais de 150 países, até onde ela pode chegar? Eu vejo a capoeira como um vírus do bem, que entra numa sociedade quase invisível e rapidamente começa a transformar todas as pessoas envolvidas. Entrando nas casas, nas famílias e assim se desenvolvendo de uma maneira muito mais abrangente. Com a internet, a capoeira vai ganhar o mundo.

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