Mariana Agunzi/

Como o menino que era caixa de supermercado criou um ateliê para valorizar a cultura negra. Publicado no dia 30 de março de 2021

O pitaco de hoje é de Priscila Camazano, repórter da Folha que trabalha com homepage e mídias sociais. Priscila narra abaixo a história do Ateliê Afro Cultural, um espaço em SP que oferece oficinas com foco na valorização e memória da cultura negra.

Ela conta que ficou emocionada com o discurso contra o racismo que o idealizador do projeto fez em um programa de televisão, e que ficou curiosa para saber mais sobre a história do ateliê. Confira.

Sankofa é um símbolo africano representado por um pássaro que volta a cabeça à sua cauda. Ele mostra que nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás. E assim como essa filosofia do povo Akan, de Gana, o Ateliê Afro Cultural, em São Paulo, nasceu com o objetivo de resgatar a cultura e memória negras do Brasil.

Idealizado por Wilson Pedro de Oliveira, 35, e Nathália Costa Santos Monteiro, 35 –conhecidos como Wil e Nathy–, o espaço educativo utiliza literatura, música e trabalhos artísticos manuais para ensinar a história afro para crianças e adultos.

O casal ganhou visibilidade após participar do programa Caldeirão do Huck, na rede Globo, no dia 19 de março –véspera do Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Antes de anunciar para Nathy que sairiam do quadro “The Wall” com o prêmio de R$ 121 mil, Wil fez um discurso emocionante contra o racismo.

“Nós somos oriundos de um povo que é capaz de sorrir, mesmo estando de barriga vazia. Primeiro, nós fomos arrancados de nossas pátrias. Fomos amarrados, acorrentados, torturados, humilhados, arrastados… Já levamos 80 tiros, já levamos 111 tiros. E as balas perdidas sempre nos acham. Estamos perdendo as nossas crianças negras. Aí eu pergunto: por quê? Pra quê? E até quando?”.

Para tentar reverter essa triste realidade, o projeto dialoga com os pequenos negros e não-negros. “As crianças de hoje vão fazer toda a diferença no amanhã. E eu quero que o meu filho cresça em um mundo mais igualitário e com mais oportunidades”, diz Nathy.

Em janeiro de 2020, o ateliê ganhou uma sede no bairro da Casa Verde, zona norte da capital paulista. Nos fundos da casa alugada, uma edícula, o casal montou o espaço para as atividades. Livros, instrumentos e materiais para oficinas de arte foram organizados em um ambiente carregado de memória ancestral.


Com a pandemia, as atividades presenciais foram suspensas, mas o ateliê, sem fins lucrativos, se mantém. Os poucos meses antes da quarentena serviram para estruturar o projeto que começou quando Wil tinha 18 anos.


Na época, ele trabalhava como operador de caixa em um supermercado. Um senhor, impressionado com seu timbre de voz, grave e potente, se apresentou –chamava-se Roberto Fabel, professor de canto lírico–, e lhe entregou um cartão.

A partir daquele momento, aulas de canto e apresentações de ópera no Theatro Municipal passaram a fazer parte da rotina de Wil. Até um curso de teatro, “para se soltar mais”, ele fez. Mas ainda sentia falta de algo –Wilson gostava do canto lírico, mas era o samba de Candeia e Cartola e o rap dos Racionais Mc’s que o emocionavam mais.

Em uma viagem para Salvador que fez a trabalho, conheceu o Bando de Teatro Olodum. Encantou-se com a apresentação da peça “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare. O elenco de atores negros, usando dreadlocks e black powers, o deixou fascinado, diz.

Quando voltou para São Paulo, foi apresentado à história de Abdias do Nascimento, de quem até então nunca tinha ouvido falar. Passou a pesquisar os grupos de teatro influenciados pelo dramaturgo e descobriu coletivos como Cia. de Arte Negra, Cia. Os Crespos e Coletivo Negro. Entrou em contato com cada um deles pelas redes sociais e se colocou à disposição para ajudar no que fosse preciso.

Em 2014, quando descobriu a palavra banzo –que em yorubá significa toda a tristeza profunda que os negros escravizados sentiam–, resolveu escrever um poema que depois virou uma peça.

Wil convidou, entre outros atores, a artista e produtora Vanessa Soares para encená-la. Com os novos amigos, fundou o coletivo de teatro Agô Performances Negras –agô, nas religiões de matrizes africanas, significa pedir licença. “Desde o começo eu queria falar pelos nossos e dar continuidade a essa voz [ancestral]. Queria que o meu corpo negro fosse um instrumento para fazer essa comunicação”, afirma.

Mesmo com o grupo de teatro já consolidado, Wil ainda sentia que poderia fazer mais. “A arte pra mim é muito mais do que entretenimento, é uma missão social muito forte”. Começou assim a estruturar um projeto voltado para crianças. “[O ateliê] é um espaço educativo de criação, reflexão e valorização da cultura e da memória negra brasileira”, explica.

Entre as atividades do Ateliê Afro Cultural estão contações de histórias, apresentações musicais, oficinas de pintura e criação de bonecas abayomi. Tudo visando aproximar a criançada da cultura negra.

Wil e Nathy perceberam também o interesse dos adultos pelas atividades. “Costumamos dizer que o ateliê é um projeto para crianças de 0 a 100 anos”, brinca o idealizador. “Queremos mostrar para as pessoas que é importante, antes de se chegar a algum lugar, entender de onde nós viemos”, explica Nathy. “Nossa sociedade quer criar pessoas alienadas e sem memória.”

Com o prêmio que ganhou no programa de TV, o casal pretende sair do aluguel e comprar um espaço físico para o ateliê receber mais pessoas. E ensiná-las que é importante conhecer a história afro-brasileira, pois, como diz o ditado africano citado por Wil na televisão, “o rio, quando esquece de onde nasce, seca e morre.” (Priscila Camazano)

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