Por Tamiris Gomes

O papel dos fotógrafos das periferias no registro da realidade

Era 13 de maio de 2020, dois meses depois do início da pandemia de Covid-19, quando o fotógrafo Marcelino Melo (o Nenê) registrou com seu drone oito tratores cavando centenas de covas no Cemitério São Luiz, na zona sul de São Paulo. A imagem dolorosa transmitiu a dimensão da tragédia — que ainda perdura.

Ferramenta de memória histórica, a fotografia tem essa capacidade de denunciar e informar. “O maquinário era muito grande. Pensei: “mano, o ‘baguio’ tá louco e a gente não tá sabendo o suficiente”, sentiu Melo quando captou as imagens.

A visão aérea das covas lembrava um “código de barras”, contou. “Naquele dia voltei para casa mais transtornado”, desabafou ele, que vive no Jardim Piracuama, no Campo Limpo, e é criador dos projetos “Menino do Drone” e “Quebradinha”.

É também na zona sul, no Jardim São Luís, que mora o fotógrafo Léu Britto, correspondente da Agência Mural. Ele registra o cotidiano das periferias há mais de 10 anos e falou como é trabalhar em meio à sensação de medo e desesperança.


“Se eu travar e tiver mais medo do vírus eu tô lascado, passarei fome. Meu corre é viver de fotografia. E para registrar histórias tenho que ir até onde elas moram”, disse.


“Máscaras, álcool, fé e coragem” é o que Britto carrega junto com a câmera e os equipamentos fotográficos quando vai fazer uma cobertura. Em setembro de 2020 ele publicou o especial “Retrato em Quarentena”, após fotografar o peso da pandemia e os impactos do avanço das mortes pelo vírus nas periferias.

O fotógrafo relatou a rotina dos trabalhadores de cemitérios de São Paulo, além de registrar em reportagens a aglomeração no transporte público, falta de trabalho e as precárias condições de moradia das populações nas favelas.

Entre as ocupações que surgiram na pandemia, ele destaca a ocupação no Jardim Julieta, e a favela da Tribo, no Jardim Damasceno, ambas na zona norte. “Esses locais me incentivaram a continuar documentando e focando meu trabalho no registro do cotidiano dessas famílias, que lutam pra sobreviver”, explicou.

Britto e Melo definem o trabalho fotográfico como uma importante documentação dos fatos, ainda que a percepção da imagem como recorte da realidade não tenha o efeito de mudança que se espera.


“Tive feedbacks de pessoas que viram uma foto e isso mudou seu pensamento sobre a dimensão da situação [da pandemia], passou a refletir mais.” Mas, por outro lado, Nenê conta que “tem gente que ignora”.


“E com a polarização de opiniões, chegaram a dizer que minhas fotos [da vista aérea do Cemitério São Luiz] eram fake. Já ouvi isso.” Pois é.

É a mesma sensação de Léu Britto. “Por vezes me sinto bem impotente por imagens da realidade nua e crua não surtirem nenhum efeito na sociedade em geral.”

Apesar disso, “a imagem marca historicamente que houve uma materialidade dos eventos, positivos ou negativos, de uma história”, finaliza.

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