O ‘pretuguês’ na psicanálise: reflexões de Lélia Gonzalez

por Alessandra Affortunati Martins 

É comum que aos riscos assumidos pelos avanços de um novo pensamento sigam-se algumas incertezas. As dúvidas emergem como se tivéssemos dado passos equivocados, um tanto inconsistentes. Parece que flertamos com lugares que colocam em perigo tudo o que existe. Nada mais falso. Se o pensamento seguiu até aquele ponto, aprimorá-lo significa avançar ainda mais, não retroceder às suas velhas bases. O que parece nos conduzir a um limbo ruminante é só o começo de novos laços intelectuais e afetivos que respondem de modo mais fino às nossas questões.

Quando ainda estava afogada na hesitação em torno de alguns pilares da psicanálise que pareciam frágeis aos meus olhos, encontrei Racismo e sexismo na cultura brasileira, da filósofa, antropóloga e militante brasileira Lélia Gonzalez. Com esse ensaio — no qual é preciso reparar bem em cada detalhe, para que o devido peso seja dado às coisas ditas — a autora promove um rasgo na psicanálise e, de quebra, introduz um amplo glossário na fenda aberta. Reparem bem, insisto: a olhos pouco atentos, o gesto de arrastar palavras novas ao léxico psicanalítico pode parecer singelo, ou até corriqueiro, mas não é.

Com as noções de mulata, doméstica e mãe-preta, a autora retoma o campo da linguagem tratado pela psicanálise de Freud e Lacan. Os vocábulos trazidos por ela não são anódinos para a estrutura teórica psicanalítica como um todo. Provocam um abalo cujas consequências terão que ser tratadas por todos aqueles que não são afeitos a cerrar as pálpebras diante de dificuldades.

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