Fernando Albuquerque, o Mestre Gato, um dos fundadores do Grupo Senzala

A trajetória e a história do pernambucano Fernando Albuquerque, o Mestre Gato na capoeiragem carioca, no Brasil e no exterior se mistura com o desenvolvimento do Grupo Senzala. A Capoeira do Grupo Senzala e a sua corda vermelha exerceram e ainda exercem uma influência no desenvolvimento pedagógico e metodológico da capoeira que se joga em boa parte do território brasileiro e no exterior. É inegável a contribuição do Grupo à pratica da capoeiragem a exemplo de outros grupos como a Cordão de Ouro no Estado de São Paulo. Nessa roda Mestre Gato conta um pouco da sua história e do Grupo Senzala.

Quando e como começou o grupo Senzala? (Momento em que a capoeira entrou na sua vida?) O Paulo Flores e o irmão dele o Rafael são baianos e moravam aqui. O Paulo era meu amigo e certa vez numa festa na casa dele teve uma confusão.  Ele foi o protagonista da peleja, deu um golpe em um rapaz. Aquilo me impressionou. Depois ele disse que era capoeira.

Nas férias de verão eles foram para Salvador, e lá começaram a frequentar a academia do mestre Bimba. Isso por volta de 1962. Quando voltaram organizaram treinos na casa deles e convidaram alguns amigos, entre esses amigos estavam eu e meus irmãos. Depois comecei a frequentar algumas rodas, entre elas a do Artur Emídio.

Em 1965 Mestre Acordeon esteve aqui no Rio de Janeiro com um show chamado Vem Camará. Fomos ao show e depois Mestre Acordeon foi ao terraço dar umas aulas para nós. Deu umas bandas em todo mundo lá (risos). Quando ele foi embora, o Mestre Preguiça, o mais novo entre eles e formado de mestre Bimba ficou com a gente.

Em 1966 foi realizado o evento Berimbau de Prata em Santa Tereza no Rio de Janeiro. O Valdo Santana (Mestre de Capoeira, colaborou com a construção da capoeira carioca, além de praticante de luta livre. Junto com seu irmão Waldemar enfrentavam os Gracie nos combates desportivos) pediu para que eu e o Paulo representasse a academia dele. Ficamos em terceiro lugar.

Em 1967 foi realizado o torneio chamado Berimbau de Ouro, participamos com a apresentação de grupo e de dupla, e de novo com a base da academia do mestre Bimba, a regional, nós vencemos. Em 1968, participamos e vencemos de novo. Em 69 disseram que não podíamos participar porque éramos considerados professores. Esses eventos deram projeção para a capoeira e para o grupo Senzala.

Sobre a Salvaguarda da Capoeira, o que pensa? Acho importante, o pessoal do grupo tá participando aqui no Rio junto com o IPHAN. Tem de ser feito. Na reunião que fizeram aqui alguns pontos teve concordância do pessoal. Um dos principais pontos de que me lembro era fazer um inventário dos fundamentos do que é a capoeira em conjunto com os mestres, para que ficasse registrado e não ficar somente na conversa.

Aqui também foi tirado o levantamento da capoeira do Rio de Janeiro. Mostrar as características e diversidade da capoeira carioca. Outro ponto importante são os locais onde podem estar havendo a capoeira. Por exemplo; nas praças públicas para que assim se viabilize um projeto em que determinados mestres possam fazer isso com recursos e dessa forma promover a capoeira

Existe em curso no Brasil o Debate acerca da profissionalização da capoeira, qual a sua posição? Acho que a capoeira tem que ser preservada. Tem que haver esforços do IPHAN, da própria capoeira em preservá-la, independentemente das outras visões existentes. Acho que a raiz e a origem devem ser preservadas, e só será com o seu exercício e com a sua prática.

A promoção, a manutenção das rodas, os eventos que difundem a cultura, a discussão da capoeira, as aulas e o jogo é que vão manter a capoeira. Dentro do Grupo Senzala, por exemplo, eu defendo que a formatura do mestre deve ser aqui no Brasil.

É uma maneira de manter uma das características da capoeira; as referências dos mestres mais antigos. No fundo a capoeira é um exercício de brasilidade. Lá em Paris por exemplo, tem uns caras que aprenderam capoeira de qualquer jeito, e fazem uma roda sem mestre. Não querem nem saber, se você não mantiver uma ligação profunda com a expressão popular, daí fica tudo a Deus dará, e as consequências são a violência e o desaparecimento da capoeira ali. Tem que ter gente que seja respeitado para conduzir. Maestrar a roda senão inventam não sei o quê e vai desaparecer. Tem que ter um mestre que tenha referência. É importante mestre que tenha referência aqui no Brasil.

Eu sempre digo para os alunos lá fora que é importante a vinda deles para o Brasil. Mais ainda, além de vir para aprender a capoeira, vir aqui e apreender o dia a dia do brasileiro, porque o jeito do brasileiro é o jeito que a capoeira tem. A capoeira reflete o que é o brasileiro, ser parte de uma comunidade o que é muito forte da capoeira e que veio do nosso povo aqui do Brasil. Lá fora as pessoas são muito distantes, cada um vive o seu dia a dia.

Aqui no Brasil temos o prazer de receber e dividir, lá fora os caras tem medo de ser convidado para sua casa com medo de ter que retribuir, não querem ter trabalho de receber você em casa. Aqui no Brasil não, aqui se trabalha até em mutirão um ajuda o outro. Quando tem uma festa todo mundo vai, divide, põe mais água no feijão e pronto. Então essa coisa do Brasil que eu acho que é importante, que a gente tem e que nós temos que preservar e fortalecer.

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