Uma reflexão sobre o filme “Krenak, Sobreviventes do Vale do Rio Doce” sob a perspectiva da racialização do Outro.

Evidentemente há uma série de nuances e diferenças profundas no tratamento designado à africanos escravizados, afrodescendentes e indígenas, no que concerne ao processo colonial brasileiro. Sendo assim, o objetivo da presente reflexão não será o de traçar paralelos arbitrários entre os sujeitos afro-diaspóricos delineados no artigo “Tornar-se sujeito afro-diaspórico: working with Du Bois, Frantz Fanon e Stuart Hall” (FLOR, KAWAKAMI e SILVÉRIO, 2020) e os sujeitos Krenak delineados pelo documentário “Krenak, Sobreviventes do Vale do Rio Doce”, mas sim produzir uma reflexão sobre a construção colonialista do Outro, presente em ambas as produções.

O filme “Krenak, Sobreviventes do Vale do Rio Doce” é desenvolvido na perspectiva de uma genealogia que discorre sobre uma linha do tempo demarcada por momentos chave para a compreensão da trajetória histórica do povo Krenak, desde as suas primeiras interações com o aparato colonial português até o momento atual. Pode-se entender que se trata de uma produção que visa denotar a perspectiva dos Krenak em relação ao conflito colonial que dá corpo ao que chamamos Estado nacional brasileiro, bem como evidenciar que o processo colonial produziu “um Brasil feito de dor e de ódio”. Isto é, foi produzida uma identidade nacional às custas do extermínio, do poder sobre os corpos, do estupro, da tortura e da criminalização dos povos originários.   Aqui vemos o ódio ser delineado como afeto fundamental no estabelecimento da relação entre portugueses e indígenas, algo que também pode ser visto na fixação da subjetividade negra pelo olhar branco. Nas palavras de Frantz Fanon:

“Era ódio, eu era odiado, detestado, desprezado, não pelo vizinho da frente ou pelo primo materno, mas por toda uma raça.” (FANON, 2020, p.110 ).

Os remanescentes do povo Krenak retratados no documentário vivem na cidade de Resplendor no estado de Minas Gerais, são 343 pessoas que vivem em uma área de aproximadamente 4 mil hectares de território. Uma fração do território originalmente habitado pelos nativos, o qual chegou a ocupar uma grande região que abarcava parte da porção norte do que hoje é o estado do Espírito Santo, passando pelo leste de Minas Gerais e se estendendo até a porção sul do estado da Bahia. O nome Krenak significa “cabeça na terra” e remete à origem do povoado, quando o primeiro cacique ainda estava por definir um nome que desse significado àquele território em relação à aldeia que ali se construíra e o fizera em decorrência da queda de um recém nascido durante seu parto, segundo relata a estudante Yasmin Souza.

Desde as primeiras interações entre os colonizadores portugueses e os povos que habitavam as margens do Rio Doce, documentadas pelo filme, vê-se uma relação profundamente marcada pela estigmatização, pela degradação e pela violência. À começar pela estigmatização física dos nativos ao serem denominados pejorativamente de “Botocudos” pelos portugueses, em referência aos batoques (ornamentos labiais e auriculares) utilizados por diversos povos do Rio Doce. Simultaneamente há um processo de degradação ambiental e humana promovido tanto pelo desmatamento da vegetação original, quanto pela profusão de epidemias que levou à morte de parte importante da população originária. E para além da violência simbólica e devastação biológica nota-se uma relação marcada profundamente pela violência material institucionalizada em normatizações como a proibição dos povos de se expressarem em seus próprios idiomas, a escravização e a eliminação de seus corpos ao sabor dos interesses coloniais, bem como o estupro e o matrimônio forçado de mulheres nativas. Nesse contexto me parece ser possível visualizar a apreensão da subjetividade indígena pelo olhar do colonizador na figura do Outro, semelhante a criação colonialista do Homem Negro Outro evidenciada por Fanon e alicerçada na negação da humanidade dos sujeitos tidos como objetos  do processo colonial (FLOR, KAWAKAMI e SILVÉRIO, 2020).

Fundamentados na perspectiva da “Guerra Justa” desenvolvida enquanto instrumento colonial durante os séculos XVI e XVII, os colonizadores portugueses declararam guerra à “nação botocuda” no dia 13 de Maio de 1808, já no século XIX. Pois entendiam os povos que viviam há séculos às margens do Rio Doce tanto como entraves ao “desenvolvimento” e ao “progresso”, isto é, entraves à interiorização colonial extrativista, quanto como seres selvagens e incivilizáveis – devido ao caráter combativo daqueles povos na defesa de seu território. E tendo falhado os meios de dominação utilizados até então, os restara – segundo os próprios – o uso sistemático da força até que se esgotasse a “ferocidade” dos povos estigmatizados. Ou seja, o olhar que estabiliza e fixa Outro no lugar reconhecido daquele sujeito racialmente animalizado, elucidado por Du Bois, é pedra fundamental na conformação do poder colonial.  Tal dinâmica de guerra se estendeu até o dia 27 de Outubro de 1831, quando os colonizadores se dão por vitoriosos e articulam novos eixos de relação com os nativos, eixos estes igualmente alicerçados em uma relação militarizada e violenta porém com uma alteração fundamental nos aspectos formais de tal relação (FLOR, KAWAKAMI e SILVÉRIO, 2020).

Sob a égide de “amparar o civilizado e guerrear o índio” e liderado pelo militar francês Guido Thomaz Marlière, o aparato colonial português deixa de operar o processo pela via da guerra ostensiva e passa a operá-lo pela via da “integração” do indígena à “comunhão nacional”. O que significava tão somente um reforço da criminalização dos sujeitos que não abdicassem dos bens culturais herdados de seus povos – reforço à proibição de rituais, de manifestações religiosas e até mesmo de se comunicarem em seu próprio idioma. Trata-se da imposição de um mundo sobre outro, de um mundo “civilizado” sobre um mundo “selvagem” segundo a lógica racista colonial. Este é um ponto fundamental, pois aparentemente é nele que se opera o processo de internalização da racialização pelo Outro, em que aquele que escapa ao extermínio é colocado na posição de se reconhecer “entre dois mundos, atravessado pelo véu da racialização” (FLOR, KAWAKAMI e SILVÉRIO, 2020), racialização essa que explica o modo arbitrário e violento pelo qual a colonização se consolidou.

A chave da “integração à comunhão nacional” parece configurar um dispositivo fundamental da “guerra em todos os lugares, o tempo todo” delineada pelo antropólogo e historiador Ailton Krenak, em outra produção cinematográfica[1].

Segundo Krenak, vivemos sob a aparência de paz para que a invenção a que denominamos Brasil continue funcionando, mas que os diferentes mundos que compõem esta invenção estão em guerra neste exato momento. E de ambos os filmes jorram evidências que dão materialidade a essa afirmação.

Tomando o caso específico dos Krenak e voltando ao documentário sobre os sobreviventes do vale do Rio Doce, é possível afirmar que esse conflito entre universos de sentido tão diversos tem cobrado um alto preço do povo nativo. Seja com a degradação ambiental e humana provocada pelos incêndios, pelo desmatamento e pelas epidemias que acompanharam a interiorização ferroviária, com a construção da Estrada de Ferro Vitória e Natividade em 1902, bem como a sua duplicação em 1942. Seja na experiência do exílio forçado pelo Estado em territórios de outros povos nos anos de 1953 (Maxakali) e 1972 (Pataxó). Seja nos mais abjetos abusos da ditadura civil-militar como a implementação da Guarda Rural Indígena em 1969 – composta em parte por indígenas “integrados” que prendiam e torturavam outros indígenas – ou do Reformatório Krenak no mesmo ano, um presídio informal em que os Krenak que fossem pegos falando o próprio idioma cumpriam penas de até 8 meses, dentre outros abusos como a tortura e a execução.  Segundo dados da Comissão Nacional da Verdade mais de 8,3 mil indígenas foram mortos pela ditadura civil-militar.

Um alto preço que parece não cessar. Pois mesmo após a enchente do Rio Doce que traz os Krenak de volta para casa depois do segundo exílio, em 1979, e mesmo após a reintegração de posse em favor dos nativos em 1993 que deságua na demarcação do território Krenak no ano 2000. Uma série de desafios se impõem àquele povo neste novo século, tanto em decorrência do “desenvolvimento” e do “progresso” mais uma vez – no ano de 2015 eclode um crime ambiental cometido pela companhia de mineração Vale do Rio Doce que matou toda forma de vida do rio e provocou impactos profundos na alimentação e na cultura do povo Krenak, que recebeu a morte do rio como a morte de um familiar -, quanto em decorrência do governo federal que assume o poder a partir de 2019.

O governo de Jair Bolsonaro voltou a tensionar a relação do Estado brasileiro com os povos indígenas, desde a sua posse o presidente da república retirou a Fundação Nacional do Índio (Funai) da pasta do Ministério da Justiça, assim como retirou da mesma pasta a Ouvidoria Indígena, o Acompanhamento da Saúde Indígena e o Conselho Nacional de Política Indigenista. Bem como retirou da Funai as prerrogativas de demarcação de terras indígenas, entregando-as ao ministério da agricultura e submetendo-as aos interesses do latifúndio e do agronegócio, historicamente antagônicos aos direitos dos povos originários.

Portanto, assim como afirma Ailton Krenak em certa passagem do episódio inaugural da série documental “Guerras do Brasil”, afirmamos em consonância e conclusão que a colonização brasileira é um projeto inacabado. Isto é, o Estado nacional brasileiro é ainda hoje um projeto colonial que tem por fundamentação a subalternização do Outro, isto é, a subalternização daquele que foge às determinações ocidentais do que é uma subjetividade legítima.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

FLOR, Cauê Gomes; KAWAKAMI, Érica Aparecida e SILVÉRIO, Valter Roberto. Tornar-se sujeito afro-diaspórico: working with Du Bois, Fanon e Stuart Hall. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar, v. 10, n. 3, set.- dez. 2020, pp. 1289-1322.

REFERÊNCIAS AUDIOVISUAIS:

BOLOGNESI, Luiz. As guerras da conquista in Guerras do Brasil. 2018 Disponível em:https://www.netflix.com/watch/81091387?trackId=14170289&tctx=2%2C2%2Cfed7f34c-ec30-4263-b1de-b5ad7f26ae7f-401701841%2C03a95c88-923b-4f00-884d-a51b6f65b69b_32483246X3XX1651062572137%2C%2C%2C%2C

MARRANQUIEL, Andrea Pilar. Krenak, Sobreviventes do Vale do Rio Doce. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6o-GjgC15vE

[1] Primeiro episódio da série documental “Guerras do Brasil”, disponível na plataforma de streaming Netflix.


Glaydson Filho é cientista social, professor músico e capoeira

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