Jogo de Dentro

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Prosa realizada em uma das visitas a Campinas no espaço de seu aluno e discípulo Danny na região do padre Anchieta em 2013.

Contra-mestre Danny, Mestre Jogo de Dentro e contra-mestre Formiga. Foto reproduzida Luciano Medina

Jorge Egídio dos Santos, o Mestre Jogo de Dentro, nascido em Alagoinhas interior da Bahia é discípulo de João Pequeno, cresceu e se educou em Salvador BA. Seu Egídio é um entre tantos outros encantados que surgem na coletividade para substanciar a vida de cada um ao seu redor ou no seu radar em aulas e cursos que ministra mundo afora.

Mestre Jogo de Dentro desenvolve o aprendizado da capoeiragem na sua mais fina essência. Sabedoria, malicia respeito e humildade; esses valores o caracterizam cuja transmissão a discípulos e amigos vem de longe, desde os tempos dos batuques de Mestre Pastinha, depois com João Pequeno, quem transmitiu o aprendizado da capoeira mãe.

Como a capoeira apareceu na sua vida? A capoeira apareceu na minha vida desde os cinco anos de idade, através de meu irmão mais velho que era capoeirista. Ele não era capoeirista de academia, aprendeu capoeira na rua, olhando, como se falava antigamente, de oitiva. Ele aprendeu para brigar, para confusão. Eu tive contato, mas não tive a oportunidade de praticar, a discriminação era muito forte. Só fui ter contato na prática mesmo depois que eu conheci o mestre João Pequeno, quando me iniciei no forte Santo Antonio, isso na década de 80, mas já ouvia falar dos grandes mestres como Pastinha, Valdemar o próprio mestre Bimba, já conhecia a nata da capoeira.

Mestre conta um pouco da sua convivência com Mestre João Pequeno. Minha convivência com Mestre João Pequeno não foi só de mestre, mas de pai, através dos movimentos da capoeira, das aulas, dos exemplos que ele passava as palavras dele, dos ensinamentos, eu uso na minha vida. Mestre João Pequeno é praticamente responsável pela minha formação e informação com a capoeira, ele me ensinou a valorizar mais a vida, respeitar para ser respeitado, como se comportar, como chegar numa roda de capoeira, como se relacionar com as pessoas.

Quando ele abriu a academia depois da morte de Mestre Pastinha deu aula cinco anos para os primeiros alunos. Ele fez uma turma de dez alunos durante cinco anos, logo depois ele começou a viajar e entregou a academia para esses alunos darem continuidade nos seus ensinamentos. Esses cinco anos que eu tive com mestre João Pequeno foi um aprendizado muito forte, tenho um cuidado muito grande com tudo que foi passado.

O que pensa sobre o Reconhecimento do Oficio do Mestre de capoeira pelo IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural? Desde que disse que a capoeira foi registrada como patrimônio, tomo muito cuidado. Esse reconhecimento da capoeira tem que ser para o próprio capoeirista, porque na verdade a capoeira são os mestres de capoeira. Reconheceram a capoeira, mas o mestre de capoeira está passando pela mesma situação que mestre Pastinha passou, não tem lugar para morar, sem alimentação, sem assistência de saúde, sem respeito. O projeto de aposentadoria que está sendo debatido para os capoeiristas deve ser colocado em prática e não deixe os mestres que estão chegando na idade morrer como Mestre Pastinha morreu, espero que seja um projeto que vá valer a pena.

Mestre Jogo de Dentro ao lado de Mestre Suassuna e João Grande . Capoeirando 2008. Ilhéus BA. Foto Mestre Ferpa CDO Barão

De certa forma vejo isso acontecendo e fico decepcionado, já vi tantas reuniões, tantos bate papos, por exemplo, vamos legalizar a capoeira colocá-la como profissão e até hoje os mestres morrem na miséria, falo dos mestres que já tem seus sessenta, setenta anos de idade, que lutaram pela capoeira, não falo dessa nova geração que tem uma história toda pela frente.

A gente sabe que o Brasil tem condição de pagar uma aposentadoria, só que ficam só no papel, manipulando situações e na verdade não acontece nada. Os mestres não têm discurso acadêmico, não tem discurso para chegar e falar para essas pessoas, os mestres ficam sempre esperando segundas e terceiras intenções. Espero que com a nova geração não aconteça à mesma coisa que aconteceu com Besouro Mangangá, que não era um capoeirista de roda, mas foi morto porque não tinha condição da leitura. As pessoas o enganaram e ele morreu porque foi assinada uma carta com a sua sentença.

Espero que não estejam criando isso, uma sentença para morte do próprio capoeirista. Por toda sabedoria, por todo conhecimento, por todo recurso que a gente tem, a gente sabe que o governo, o Brasil tem recursos para patrocinar e ajudar a capoeira, muitas vezes não tem interesse. Os mestres não têm conhecimento do que está acontecendo, espero que o capoeirista que esteja lá dentro e tem essa condição procure passar isso, e que seja verdadeiro com os mestres mais velhos.

Sobre a capoeira no Exterior? A gente que viaja para fora, enfrenta muita dificuldade para pegar o visto. O governo poderia por meio desse reconhecimento do capoeirista, pelo que já fizeram pela capoeira, garantir o passaporte carimbado, que não tivesse tanta dificuldade para pegar o visto, porque o mestre está levando nome do Brasil para fora e na verdade isso não acontece.

Qual o recado, a orientação para os que ambicionam de forma responsável seguir na vida da capoeiragem? O conselho é que estudem mais sobre a capoeira, pesquise, aprenda mais sobre capoeira, antes de falar qualquer coisa, escute o que está sendo falado, analise a situação que está sendo colocado. Hoje em dia tem muitas mentiras e muitas verdades na capoeira e isso prejudica o iniciante que tem boa intenção e está querendo aprender capoeira.

Mestre Jogo de Dentro vadiando com Espirrinho CDO. Foto Acervo Mestre Ferpa

Tem pessoas que escondem a verdade, até porque não conhecem mesmo. Ter mais humildade aprender a capoeira com quem sabe. Esse era o sonho dos grandes mestres. Mestre Pastinha acreditava que a capoeira não devia ser só aquele jogo de botar a perna para cima.

O capoeirista é um estudioso para jogar e falar sobre a capoeira, saber todo o seu passado. Antes de a pessoa falar e ensinar a capoeira, que ela aprenda a capoeira. Quando você está aprendendo é para você mesmo, agora quando você está ensinando é preciso ter base do que aprendeu para ensinar. Sem base você vai ensinar e complicar a pessoa que vai te acompanhar.

O mestre de capoeira, o professor de capoeira, o profissional de capoeira tem que ter conhecimento, respeito e cuidado do que está passando, porque senão ele não ajuda a capoeira. Viajando pelo mundo vejo tanta in- formação, muitas situações nas rodas, o fundamento se perdendo, não se valoriza mais a musicalidade de que sempre falo. Não entendem a musicalidade, a bateria da capoeira angola não tem mais o fundamento que tinha.

Os toques, aquela coisa bem seguros, não têm mais preocupação nenhuma em se manter a tradição. Não posso passar por cima da tradição, do que foi feito muito tempo atrás, se eu passar por cima do toque do berimbau, da musicalidade, estou passando por cima do mestre Bimba, do mestre Pastinha, do mestre Valdemar de todos aqueles que lutaram quando a capoeira não tinha o reconhecimento que tem hoje no mundo.

Esses homens lutaram, foram perseguidos pela polícia, deixavam suas famílias e não ganhavam nada em troca. Lutaram para que pudessem deixar essas histórias registradas. As pessoas têm todos esses valores e se esquecem do passado desses homens. O meu conselho sempre é que aprendam capoeira. Tenham humildade de ouvir, tenham a sabedoria de transmitir o conhecimento para que não se perca toda essa história, que é rica e tem um fundamento fora do comum. Espero que as pessoas que venha ter contato com a revista reflitam mais sobre o que foi falado, porque é de coração e é para ajudar a capoeira.

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