Por Jairo Malta. Fotos: Paulo Barros e Lenon Lins

Grafiteiros revitalizam muros perfurados por balas no Jacarezinho

Operação, chacina, não importa o nome que vamos dar para o que aconteceu na comunidade do Jacarezinho, Rio de Janeiro, no dia 6 de maio. O que importa são os 28 mortos, resultado de um trabalho sempre em progresso feito pela Estado brasileiro: matar negros.
Recorde de assassinatos, números que aparentemente serão sempre superados e justificados, mesmo que injustificáveis, como o efeito colateral da guerra às drogas.

Vinicius Morais e Thiago Nascimento, cofundadores do LabJacalaboratório de dados criado no Jacarezinho, que coleta informações sobre o impacto da Covid-19 no bairro, tiveram a ideia de trazer mais vida à comunidade reunindo grafiteiros para cobrir, com tinta e sprays, a marcas de balas deixadas nos muros após a tragédia.

Thiago comenta que a ideia surgiu na vontade de levantar a autoestima dos moradores da comunidade, ele lembra: “A gente presenciou tudo aquilo. Fomos acordados às 6 da manhã com helicóptero. Foi desesperador. O projeto veio para amenizar esse sentimento.”

Eles tiveram o apoio de outro projeto que leva esperança em forma de arte na periferia. O Voltando à Escola, iniciativa criada pelo artista plástico Célio, que leva arte através do grafites para as salas de aula de escolas públicas, ele diz: “eu mandei uma mensagem para o Thiago falando que eu queria pintar um mural no jacarezinho como uma forma de solidariedade ao povo que não tem nada a ver com essa guerra. Acabou que eu e ele convidamos outros grafiteiros e fizemos essa homenagem para a comunidade”, ele conclui.


O resultado foi um dia calmo, alegre e cheio de trabalho como qualquer outro no cotidiano da comunidade do Jacarezinho, Tiago diz: “convidamos cerca de 30 grafiteiros e 10 fotógrafos. Foi um momento único. As crianças pintando os muros junto com os grafiteiros, os mais velhos pedindo pra grafitar o muro da casa deles. O resultado foi um sentimento de esperança, acreditar que um novo futuro para a favela é possível”, ele conclui.


Entre os grafiteiros convidados estavam Roberto de Castro, conhecido como Time’S e Raphael de Souza Castro, que assina seus desenhos como Phael, pai e filho que superaram juntos os momentos de terror. Raphael lembra que no dia da operação ele e o pai ficaram frente a frente com o tiroteio. “Fomos alvejados com os estilhaços nas pernas. Um amigo ao lado teve a perna perfurada”, relata. Sobre o projeto, ele comenta que seu pai sempre quis retratar a história da comunidade nos muros dela pelos seus desenhos, ele continua: “Em conjunto com o LabJaca e o Voltando à Escola conseguimos colocar em prática um sonho. O objetivo era trazer mais vida para o Jacarezinho e incentivar o gosto pela arte”.

Eles tiveram trabalho. Antes de começar a desenhar, tiveram que tapar os buracos com argamassa e massa corrida. Em outros muros, tiveram que reparar algum dos desenhos que já estavam feitos, mas que os tiros estragaram. Tudo isso para manter o local onde vivem um lugar agradável.

As pessoas tendem a achar que algo é inferior pela imagem que mostrada dele, por isso a importância de sempre estarmos cuidado da nossa comunidade, Raphael finaliza dizendo: “Ninguém se familiariza com locais furados de bala, então nós sempre zelamos por nosso espaço na favela. A arte e a cultura aqui dentro incentivam as pessoas a cuidarem mais dos espaços, isso às vezes até evita uma troca de tiros só pelo fato de ter uma praça, um mural de grafite ou uma quadra”, ele conclui.

Fotos: Paulo Barros e Lenon Lins

 

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