Agência Mural

Tamiris Gomes

Mesmo não sendo considerado um serviço essencial, o setor cultural nunca foi tão necessário para amenizar os efeitos do isolamento durante a pandemia e contribuir para o equilíbrio da saúde mental nesses tempos.  A arte nos faz imaginar saídas, novos jeitos de conviver, de mudar. Tem tido poder até de curar e é um direito, mas ainda precisa de apoio para existir.

Além de apoio, os artistas precisam estar vivos e protegidos. Esta semana, continuamos perdendo vidas e talentos para uma doença cuja vacina já existe. Paulo Gustavo, ator e humorista LGBT, foi uma dessas pessoas (entre as 414,6 mil vítimas registradas até o momento desta publicação).

E não só. Na mesma terça-feira (4), Penha Pietras morreu em decorrência da Covid-19. Ela era bailarina, atriz, professora de teatro e de dança que ensinava arte para crianças e adolescentes moradores de cortiços na região central de São Paulo.

Além dos riscos da exposição à Covid-19 e das incertezas sobre o futuro, nas periferias da capital, músicos, cantores, produtores, atores, poetas, artistas em geral e difusores culturais foram e estão sendo extremamente afetados pela ausência dos palcos, teatros e outros espaços culturais.


Com ou sem coronavírus, as bordas da cidade já sofriam com a discrepância do acesso à cultura. Imagine agora.


Para termos uma ideia, dados do Mapa da Desigualdade de 2020 apontam que as regiões periféricas contam com menos centros culturais, casas e espaços de cultura, museus, cinemas, salas de shows e concertos e acervos de livros do que em áreas centrais e mais ricas.

18 distritos não têm nenhum equipamento, seja municipal ou estadual. Além disso, 70 distritos não têm sequer um centro cultural, casa ou espaço de cultura, como é o caso de São Mateus, na zona leste. Por lá, não existe cinema nem teatro. E a situação ficou ainda mais delicada com a necessidade de fechar espaços.

“Por mais que a gente tenha saídas digitais, não é novidade que questões estruturais, como a banda larga mais lenta nas periferias, impede que muitas pessoas não consigam fazer reuniões, baixar arquivos pequenos, quanto mais fazer lives ou outras atividades que exigem mais do plano de dados”, aponta Lucas Veloso, repórter correspondente da Agência Mural em Guaianases, na zona leste.

“Algumas coisas que são normais para artistas que possuem mais dinheiro ou mesmo moram em bairros centrais representam desafios à carreira de artistas menores, longe dos grandes centros”, diz.

O desafio em conseguir trabalhar com poucos recursos se une à preocupação em pagar as contas e se alimentar. Na Grande São Paulo, por exemplo, músicos tiveram até 100% da renda afetada durante a pandemia.

“A sensação é de impunidade e desespero pelas contas. Elas chegam a todo momento e, sem shows, falta grana para investir em novos trabalhos e viver a vida com o básico”, avalia Julia Reis, jornalista de cultura e fundadora da Brasa Mag — revista digital sobre hip hop, feita por 25 mulheres negras de diversas regiões do Brasil.


“Sem o auxílio do governo, só sobrevive no game quem tem mais reconhecimento do mainstream. Os artistas têm contado com editais, como do Aldir Blanc, e também do apoio de marcas.”


Julia aposta que haverá uma efervescência de atividades e produções culturais pós-pandemia. “A cultura é algo que tem extrema importância para o povo brasileiro. Ela entretém, denuncia, acolhe e te faz refletir. Antes disso, ela também tinha o poder de unir as ruas e isso faz muita falta na relação interpessoal.”

Porém, enquanto isso, a falta de políticas públicas para o setor cultural tem sido uma crítica constante. A palavra desespero foi ouvida diversas vezes pelo jornalista Lucas em entrevistas e reportagens que produziu nesse período.

“Os artistas, em sua grande maioria, não possuem carteira assinada e fazem shows e atividades quando são chamados. O que resta são políticas públicas de apoio ao setor. Nossas fontes reclamaram da falta de apoio e de medidas mais efetivas para amenizar o impacto para a categoria artística”, acrescenta o repórter.

Para Lucas, em meio a tantas notícias ruins e do luto coletivo, “o que nos ajuda a superar e ter expectativa no amanhã é um show que a gente vê, uma música, uma live ou algum conteúdo nas redes sociais, coisas que, minimamente, alimentam nossa esperança”.

Tema urgente, a produção cultural nas periferias durante a pandemia será o assunto na estreia do novo programa ao vivo da Agência Mural, o Live na Laje.

O programa será transmitido nesta quinta-feira (6), às 19h, pelo Instagram, e contará com a participação de Lucas e Julia, já apresentados neste texto. A conversa joga luz sobre os bastidores da cobertura cultural feita por quem anda diariamente pelos becos e vielas das periferias brasileiras.

O bate-papo também tem como objetivo refletir sobre a importância da arte e a valorização das pessoas que a produzem. “Enquanto sociedade, devemos nos unir em prol de uma defesa plena da nossa cultura”, destaca Lucas.

“Devemos muito aos artistas.”

Tamiris Gomes é editora-assistente e cofundadora da Agência Mural

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