Um movimento ou uma sequência nova nada mais é do que uma reorganização de movimentos antigos. Cada vez mais os capoeiristas acreditam que estão criando algo novo para a capoeira, mas na realidade, eles estão apenas desenvolvendo algo novo a partir de um movimento antigo.

A capoeira não precisa de novidades, pois ela possui seus fundamentos e sua história, mas os capoeiristas vivem em meio a tantas competições que acabam querendo inovar, utilizando algo que já existe para poderem se afirmar ou ter valor maior perante a sociedade capoeira.

Atualmente, na capoeira, o tempo de um movimento renovado é cada vez mais curto. Quando um capoeirista realiza um movimento, o outro o copia e busca incrementá-lo com suas particularidades. E quando o capoeirista apresenta um movimento novo, surge um novo desafio: outros capoeiristas também querem repetir porque acreditam na inovação contínua do movimento de capoeira.

A capoeira é um jogo de criatividade, e o espírito criativo habita nos homens, tornando possível a prática da capoeira para todos. E quanto maior for o número de praticantes, mais prestígio ela irá ter pela possibilidade de se adaptar aos vários estilos de jogo.

A criatividade na capoeira é algo positivo, desde que os capoeiristas não interfiram nos fundamentos e nas tradições do jogo. Por isso, os mestres transmitem aos seus alunos a importância dos ensinamentos dos mestres antigos, para que respeitem os fundamentos de sua escola ou do grupo de capoeira que estiverem frequentando.

Assim, os mestres interferem nas atitudes dos capoeiristas e colocam limites, além de passarem a ser os guardiões dos valores dos ancestrais capoeiristas.

Na capoeira existem duas bases tradicionais de seguimento de jogo: uma, é a capoeira angola, que assegura os princípios e a base da capoeira primitiva e, a outra, é a capoeira contemporânea, que segue a base da capoeira regional. Nos dois segmentos existem capoeiristas com alto grau de criação.

Tanto aqueles que praticam a capoeira primitiva, quanto os da capoeira contemporânea, procuram realizar suas criatividades assegurando os fundamentos dos estilos do jogo. Por motivo de empolgação ou falta de orientação, alguns se excedem na criatividade e passam a incluir movimentos e atitudes que não fazem parte do contexto histórico e do fundamento da capoeira.

Os mestres experientes e educadores, percebendo as mudanças de atitude que alguns estão tendo perante a capoeira, procuram colocar limites para que ela não perca a suas características próprias.

Cada toque de berimbau pede uma postura diferente no jogo, e não é possível ficar inventando e recriando novos movimentos a todo momento. O capoeirista que realiza essa atitude pode ficar tão fora dos fundamentos e do estilo que descaracterizaria o jogo de capoeira. É preciso tomar cuidado para não deixar as criações e renovações de golpes se sobreporem aos estilos de capoeira.

O “Mestre Pastinha” foi um grande propagador da capoeira angola, assegurando suas tradições e filosofias. Ele acreditou e lutou para que fossem preservados os princípios e fundamentos do jogo de Angola. O “Mestre Bimba” foi o criador da capoeira regional baiana e definiu os toques variáveis do berimbau e os estilos de jogo. O “Mestre Suassuna”, do Cordão de Ouro, assegurou e resgatou o estilo e o ritmo do jogo do miudinho.

É muito bom que capoeiristas venham com desejo de inovar a capoeira, desde que as novidades não atrapalhem os fundamentos. Por motivo de empolgação é comum que, ao jogar capoeira, eles saiam do ritmo que o berimbau está pedindo e realizem movimentos de capoeira fora do tempo e do toque do berimbau, causando, assim, um esfriamento no jogo.

O capoeirista pode recriar movimentos de capoeira, mas não pode mudar os vários estilos de jogo que essa arte de cultura popular possui. Para isso, é necessário que os capoeiristas respeitem as tradições e os fundamentos.

É prudente que o capoeirista, antes de  criar algum movimento ou estilo novo para a arte, tenha como prioridade cultural ser responsável por assegurar a tradição. As criações fazem parte do jogo e da arte da capoeira, mas aquilo que traz a identidade do gênero cultural são os conhecimentos herdados pelo tempo, assegurando assim, a história e a tradição de uma arte popular afro-brasileira.


Mestre Biro – Capoeira e Escritor

Autor dos livros, Capoeira, cultura que educa, o Carroceiro e a Irmandade

 

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