As crianças não conseguem modificar o golpe no momento da sua aplicação, porque ainda estão em processo de aprendizagem e formação e ainda não adquiriram a experiência, a malícia e a vivência que os capoeiristas mais velhos já conquistaram.

Elas reproduzem o que aprenderam, mas ainda não têm consciência de que os passos da capoeira, representados pela ginga, são uma forma de se posicionarem para projetar um golpe ao oponente, e terminam apenas chutando.

Uma vez executado o golpe, sem a intenção de prejudicar o outro, se o oponente não souber sair poderá ser acertado e até se machucar.

Nessa linha de pensamento, é de bom juízo que mestres de capoeira tenham o cuidado de selecionar o que irá ensinar, para não passarem a imagem de que a capoeira torna as crianças agressivas.

A agressividade de uma criança em processo de desenvolvimento pode significar que ela esteja em conflito e precise se autoafirmar, colocando-se contra a situação e reagindo, muitas vezes, de maneira imprudente.

A sua força está em seus sonhos e na vontade de realizar as suas conquistas, e a capoeira é uma arte cultural que dá aos seus praticantes a oportunidade de alcançá-los.

A superação dos capoeiristas dá-se nos treinos e no seu esforço pessoal, e a recompensa é notada à medida  que eles vão adquirindo segurança para executar o que planejam.

A criança é pura. Ela consegue aprender e reproduzir o que está sendo transmitido e, assim, coloca os seus conhecimentos em evidência no momento do jogo de capoeira ou em suas brincadeiras do dia a dia.

Os golpes devem ser ensinados, juntamente com as saídas e esquivas, e os educadores devem enfatizar mais a defesa do que o ataque.

Os treinos em duplas são mais proveitosos, promovem  mais compreensão e desenvolvem a habilidade de percepção espacial, oferecendo autoconfiança aos alunos.

Desenvolver a autoconfiança é diferente de fazer com que as crianças desenvolvam a consciência. Para ter consciência no jogo da capoeira é necessário observar, perceber, optar, projetar e conhecer os golpes realizados.

O mestre educador procura desenvolver primeiro a confiança nos seus alunos, além de ensinar também que a capoeira é uma luta que faz parte da história do Brasil, e que foi usada como resistência ao opressor, por um povo considerado escravo.

Esse povo não se entregou à forma desumana da escravidão,  criando inúmeros movimentos de resistência social.

A capoeira é reconhecida por uma luta que os negros criaram para se defender e sair do subjugo da escravidão.

Ensinar a capoeira para as crianças com sentido histórico e cultural é também passar o compromisso de que um praticante de capoeira deve respeitar o outro.


Mestre Biro – Capoeira e Escritor

Autor dos livros, Capoeira, cultura que educa, o Carroceiro e a Irmandade

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