Artistas negros destaca produções de artistas presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural (IC). A cada edição da série, uma conversa sobre trabalhos com temáticas e estilos variados, buscando ampliar horizontes

por Duanne Ribeiro

Tendo frequentado o impossível, foi lá e fez. A história de como Eustáquio Neves desenvolveu seu processo criativo permite abrir este texto com essa frase, uma reelaboração de outra que já é até clichê – “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”, atribuída ao escritor Jean Cocteau. Pois Eustáquio, depois de visitar uma exposição do artista visual Arthur Bispo do Rosário e ao ler um livro do filósofo Vilém Flusser, teve algo como uma revelação: sua liberdade era total.

Químico de formação, fotógrafo em começo de carreira, viu obras de Arthur Bispo e pensou: “Se esse cara fez isso, eu posso fazer o que eu quiser com a fotografia”, sensação semelhante a que teve após A filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia, texto que lhe assegurou: “Vilém Flusser acaba de me autorizar”. Com essas e outras influências – em que se incluem os cineastas Wim Wenders e Andrei Tarkovski – descobriu na arte um meio de satisfazer o ideal que o levara à ciência, a “vontade de experimentar, e pegou gosto por romper normas.

Experimentando com temas, materiais e técnicas, desrespeitando purismos, Eustáquio produziu o que se chama de fotografia expandida, gênero marcado por imagens híbridas, manipuladas de várias formas, reinventadas por intervenções. Tudo isso em uma procura por transmitir sentidos, encontrar meios de expressar os temas que o convidam. Como se diz no site Geledés:

A manipulação, tão lembrada quando se fala nos trabalhos de Eustáquio, pode ter um valor em si, e em alguns casos ser a técnica e o próprio significado de uma obra. No caso dele é ferramenta que usa com habilidade como agregador de significados, elemento de interferência aleatória para solapar leituras realistas, um instrumento que constrói os contornos de uma ideia. Distante da ideia matriz que conduz a obra, nada significa.

A fotografia acima, parte da série Objetivação do corpo, demonstra esses procedimentos. O tema desse conjunto de obras é o uso da mulher pelas mídias, a sexualização tendo em vista a venda de produtos, a “banalização do corpo”, define o artista. A essa estética com que estamos muito familiarizados (dos comerciais de cerveja, das revistas masculinas) Eustáquio opõe outra, cheia de ruído, etérea. A nudez da moça da foto não vende, não oferta, não fragiliza – quase nem entra em questão. Como sua cabeça baixa e a expressão séria apontam, ela está voltada para dentro.

Eustáquio conta que procurou dar às imagens da série uma aparência de lambe-lambe. Por isso, interferiu nas fotografias com tinta acrílica, com “uma pintura que não é uniforme, é uma pintura que entra como se [a figura] tivesse sofrido a ação da chuva, do sol; é como se fosse um cartaz colado em tapumes, vem alguém e pixa…”. Assim, de um lado temos a ferramenta publicitária e do outro a exposição, a vulnerabilidade – é interessante como já na forma do trabalho, no material usado, já se inscrevem as temáticas que o fotógrafo quer tratar quanto ao corpo feminino.

De certo modo, os cartazes que sofreram a corrosão do tempo lembram a situação da mulher na fotografia que enfocamos. Quando perdem a atualidade e a capacidade de comunicação, perdem sua posição no mundo da compra e da venda – cada qual por uma razão, eles e ela parecem estar aquém de um mundo que se apropriaria deles. Escapam por estar numa dobra, num recuo.

Em outras fotografias de Eustáquio, é possível ver essa mesma autopreservação. Em Vênus II, o erotismo possível é desarticulado pela coloração de foto antiga, pelos escritos e manchas que invadem a imagem, pela postura serena e segura da modelo. Em Vênus I, o esfumaçamento da coxa, a transparência da mão e do braço, o apagamento da face geram um ar fantasmagórico.

Nesta outra peça de Objetivação do corpo, porém, o escape se dá de outro modo: a mulher está também guardada consigo, isolada dos usos sociais – mas desta vez por constituir algo grande demais. Isso é sugerido tanto pelos elementos que imprimem um significado de “fora do alcance” – a tinta preta que ostensivamente bloqueia a vista do corpo, o quadriculado de muro que cobre a pele –, quanto pelos signos que indicam que o tema da imagem é o próprio símbolo mulher – a palavra feminino, o símbolo de Vênus, ♀, a maçã, que remete à história cristã de Eva.

“Uma mulher! O poder oculto desta palavra”, diz a escritora Clarice Lispector em um conto. Se a imagem midiática reduz de forma utilitária, Eustáquio se volta para esse poder oculto que não pode ser totalmente captado pela propaganda (e talvez nem por ele, que, homem como eu, traz ainda um olhar de fora sobre a mulher). Aqui como em outros trabalhos, tratando de outras temáticas, é a partir de um humanismo que o artista trabalha, reforçando o valor da identidade, orientando à emancipação. Como ele diz, “o que move o meu trabalho […] é a estética do humano”.

Eustáquio Neves é fotógrafo e videoartista. Formou-se em 1979 técnico de química industrial; em 1984, deixou a área para se dedicar à fotografia. Os assuntos do seu trabalho surgem de experiências pessoais, da vivência do negro na sociedade brasileira, da atenção a acasos e das encomendas – diz ele, desafios à criação. À inspiração somam-se a pesquisa e o estudo formal. O tema de uma estética que submete o outro – que vimos em Objetivação do corpo – também é tratado, por exemplo, em Boa aparência (1999/2000); já Aduana (2019) fala, entre outras coisas, da apropriação violenta dos corpos na escravidão. Conheça mais sobre Eustáquio e veja uma galeria de obras suas na Enciclopédia Itaú Cultural de arte e cultura brasileira.

Eustáquio Neves Sem título, da série Objetivação do corpo, 1999/2000 manipulação de negativo e cópia em laboratório da matriz PB, saída digital 126 x 100 cm Acervo Banco Itaú Imagem: Arquivo do artista/Itaú Cultural
Fonte: Itaú Cultural

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