O que era para ser um registro jornalístico convencional através de uma entrevista pingue-pongue concedida em agosto de 2019, se converteu numa crônica.

Essa conversão não foi por acaso, ela se deu por dois motivos. Primeiro porque a distância entre a realização da entrevista com a expectativa de publicação, que seria ainda em 2019 se dilatou. Em jornalismo se costuma dizer que a entrevista perdeu o time.

A segunda razão é que desde a entrevista até os dias de hoje, muita coisa aconteceu, tanto para o Mussum, quanto para esse escriba que vos escreve. Então, o formato jornalístico entrevista pode até ter perdido o time, mas o que se desenrolou com o Luiz Otávio depois disso, foi o oposto. De qualquer modo, a única coisa que jamais perdeu o time foi o Luiz Otávio, o Mussum, que agora é Puma Camillê.

Luis Otávio Camilo Martins, na época da entrevista tinha 28 anos. Nascido em Campinas é morador de um dos bairros mais tradicionais para a comunidade negra, o Jardim São Bernardo. Conhecido como Mussum, apelido que foi escolhido pela interação do ambiente em que vivia ainda pequeno; era preto, gordinho e careca, logo, o repertório do ambiente interativo do pequeno Luis Otavio lhe apontaria como Mussum. Lhe apelidaram sem a menor noção do que estavam reproduzindo, sentencia Camillê.

Puma Camillê em batizado 2013

Não que Mussum fosse algo ofensivo ou qualquer coisa negativo, é que as associações e significações que se padronizaram colonialmente ao longo da sociedade brasileira, por conta do arquétipo do próprio Mussum, potencializou o que somente hoje se pode afirmar se tratar de racismo estrutural. Afinal de contas a reprodução desse comportamento racista é destituído, geralmente de maturidade reflexiva, além do próprio valor moral da aristocracia ainda vigente nos nossos dias.

Veja! ainda hoje é assim. A grande maioria não sabe sequer do Mussum de Antonio Carlos. Grande Otelo, no alto de sua genialidade sabia, por isso o associou ao peixe de água doce. Raro de se encontrar e difícil de pescar.


Umas das características dele é a velocidade, além de liso. Não se consegue pegá-lo facilmente. Sua tonalidade escura é como uma espécie de camuflagem, que serve tanto para capturar suas presas quanto para se defender.


Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum era um versador de partido alto de raciocínio rápido. Improvisava como poucos, relata um de seus parceiros prediletos no verso, Zeca Pagodinho.

Como disse Luiz Otávio, as pessoas reproduzem comportamentos e fazem associações sem a menor noção do que estão fazendo. O grande pensador martinicano Frantz Fanon, a quem Luiz Otávio citou na conversa comigo, diz em suas reflexões que o corpo negro é um território político. Eu emendaria citando Luiz Antonio Simas e diria que o corpo do negro é desobediente e criativo. Se reinventa a todo instante, e é o que faz Puma Camillê.

O capoeirista Mussum conhecido e requisitado nas rodas encantadas da capoeiragem já viajou o mundo. Europa, Oriente Médio, EUA, México, entre outros países latino-americanos.


Puma Camillê é grato ao Mussum que lhe permitiu chegar aonde está. Ele abriu portas para a vivência dos sonhos; “criando a própria realidade. O malandro entendeu que é potente” profetiza Camillê.


Assim que mudou o apelido, ele foi as redes sociais responder as perguntas e argumentar os motivos da mudança, e porque gostaria de ser chamado a partir daquele momento de Puma Camillê.

De forma fraterna e didática, como bom professor de capoeira que é, Puma se refere a uma gata de olhos brilhantes e ágil; que sabe cair como bom jogador de capoeira na roda. Cai leve e bonito. “Eu sou bonito, demorei muito para entender. Agora sei o que é ser”. Camillê vem de Camilo, seu sobrenome. Camilo é masculino e Camila ficaria feminino, óbvio. A mudança da pronuncia da vogal ê, é porque ela é agenero.

Para Luiz Otávio, não tem problema as pessoas ainda se dirigirem a ele por Mussum. Como disse, foi o Mussum que o levou até onde está.

Num momento singular da vida, agora com a tarefa de gerenciar sua carreira artística, a mudança no apelido não é só um imperativo político, mais estético também.  Ainda como Mussum, iniciou um processo de visibilidade social dentro do universo tradicional da capoeira, como poucos já fizeram.

Exímio jogador e filosofo da capoeira que é, aliás, a exemplo de seu mestre, Joguinho, Mussum introduziu aos poucos a linguagem LGBTQIA+ dentro desse território, o que o tornou uma referência. Ele possibilitou uma abertura para o debate dentro da roda, que nas entrelinhas se revela conflituoso ainda. Uma contradição dada a origem da própria capoeira que é da existência e resistência.

Dado as batalhas desde muito cedo Puma Camillê percorreu por toda a infância, adolescência e depois como adulto aos enfretamentos; discriminação e preconceito. Foi justamente de posse da linguagem  da capoeira que ele pôde como muitos outros capoeiras desbravar outros territórios e idiomas.

“Você já ouviu falar da mistura de capoeira com vogue? Conheça Puma Camillê, um brasileiro que mistura a arte marcial com o estilo de dança popular na comunidade LGBT”. Inserção na DW Brasil no início do ano 2021

Multiartista, ele introduziu a capoeira para dentro do movimento Vogue ou Voguing. Dança moderna altamente estilizada que se caracteriza por posições típicas de modelos com movimentos corporais definidos por linhas e poses (Wikipédia). Ela nasce na cena drag americana. Pessoas LGBTQ+ negras e latinas não tinham visibilidade nos concursos de drag. Por isso, Crystal LaBeija, em 1977 juntou o público renegado desses campeonatos em Nova York e criou o que ficou conhecido como a primeira casa de Voguers.

Como se nota, Camillê se identifica com a luta, com a sua luta de existir e ser o que é. Certamente o Capoeira-Vogue lhe permitirá voos acima daqueles já sobrevoados por esse felino bonito e bom de capoeira. Saravá Puma Camillê

 

 

 

 

 

 

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